Uma Rotina Incasável – IV

Anterior: Uma Rotina Incansável – III


E o despertador tocou, exatamente às 5:30 da manhã.

– Ah, não quero levantar… –  Juliana virou para o lado e voltou a dormir.

– Puta que o pariu! To atrasada. O relógio já marcava 6:35.

Tomou banho rápido, se trocou aos trancos e barrancos e saiu como um foguete de casa. Ela chegaria de novo atrasada.

Esperou ônibus, entrou naquela lata de sardinha e foi chacoalhando até o metrô. Onde tinha mais gente, e parecia outra lata de sardinha.

Essa hora da manhã era difícil pensar, ir para o trabalho já tinha se tornado uma coisa tão mecânica que ela nem precisava pensar em como chegar lá.

Algumas vezes, mesmo dirigindo, o caminho era tão conhecido, que ela só percebia que tinha saído de casa quando sentava em sua mesa.

Chegou esbaforida e descabelada, além é claro, de estar atrasada.

Quando sentou em sua mesa, finalmente começou a pensar em algo. A primeira coisa que veio na sua mente foi o dia anterior. Pensava sobre isso enquanto abria seu e-mail, depois seus feeds, engraçado a capacidade humana de ligar o piloto automático e permanecer assim.

Estava bem alegre, afinal, esse seria seu último dia de trabalho antes do mês de férias. Ah férias, você sempre fica sonhando em tê-las e quando finalmente chega, não sabe muito bem o que fazer com elas, além de começar a acompanhar todas as novelas, inclusive as da tarde, e ver os filmes de sessão da tarde.

Quando finalmente chegou à parte das lembranças onde dormia pensando que aquele senhor pervertido que canta garotas indefesas que acabam dormindo enquanto esperam seu pai em seu carro quebrado, era um anjo.

Aquilo não saia de sua cabeça, de onde tinha tirado aquela idéia? Lembrou do documentário, e começou a pensar como seria se aquilo fosse verdade, quer dizer, e se ele fosse um anjo? Isso queria dizer que alguém lá em cima se importava com ela. Afinal as coisas não estavam tão ruins assim, não se manda um anjo para qualquer um.

Desistiu desses pensamentos, tinha uma péssima mania de imaginar demais. Isso nunca era bom, principalmente em relacionamentos amorosos, ela saia duas vezes com o rapaz, e começava a pensar em tudo o que ele poderia fazer para provar seu amor. Fazer uma daquelas loucuras de amor, isso era super brega, mas será que um dia ele teria coragem de fazer uma coisa assim? Não que ela quisesse que ele fizesse, mas imaginava se ele seria capaz.

“Mas será que ele é daqueles anjos que vivem na terra escondidos entre nós ou ele só veio falar comigo? Será que os anjos agem como a gente fala? Porque, por exemplo, os vampiros, se eles realmente existem, não acho que vivem igual ao que a literatura retrata. Droga, to pensando nisso de novo.”

Ela simplesmente não conseguia parar de pensar, a imaginação dava margem à sua curiosidade, inventou situações onde via o velho tarado virando anjo e farfalhando suas asas. Aliás, pensava ela, se ele fosse mesmo um anjo, teria que parar de chamá-lo de velho safado.

No final da tarde depois de muitos pensamentos, muitas invenções e a perspectiva de um mês de férias sem nenhuma emoção, teve uma idéia. Iria investigar o velho tarado, e descobriria se ele era seu anjo.

Estava decidida e no dia seguinte quando acordou tomou um banho e foi procurar seus “materiais”, seu sobretudo bege, que achou que nunca teria a oportunidade de usar, e seu kit de detetive, um caderninho de anotações da Hello Kitty, uma caneta rosa com um pompom na ponta (nenhuma das outras pegava, ela odiava essa caneta), sua câmera com as fotos do último Natal, que tratou de descarregar no computador antes de sair, e por último, mas não menos importante, seu binóculo que fez questão de comprar na única vez que conseguiu juntar dinheiro o suficiente para ir à um apresentação no Teatro Municipal.

Saiu de casa pisando forte, já testava o seu “Elementar meu caro Watson.” Finalmente faria algo de suas férias que não fosse assistir ao “Vale a Pena Ver de Novo” e esperar, de novo, que a mocinha fique com o mocinho (mesmo já sabendo exatamente o final).

Anúncios

Um comentário em “Uma Rotina Incasável – IV

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s